Quais ações do setor de papel e celulose mais se beneficiaram com a alta do dólar?

É consenso entre alguns analistas do mercado financeiro que o setor de papel e celulose está entre os exportadores que mais se beneficiam com a alta do dólar norte americano. Porém, quais são as empresas que mais se beneficiaram no momento? Será que a variação do dólar é suficiente para impactar todas as ações desse setor? É o que veremos neste artigo.

Primeiramente, apresento a metodologia utilizada neste pequeno estudo, que nada mais foi do que a comparação entre os coeficientes de correlação de Pearson entre as cotações de fechamento, ajustadas pelos proventos, das ações das empresas do setor de papel e celulose com as cotações fornecidas pelo Banco Central do Brasil para o fechamento diário do dólar na venda. O período analisado corresponde aos últimos seis meses, do dia 26/02/2018 ao dia 24/08/2018.

Informalmente, o coeficiente de correlação é uma medida estatística que, como o próprio nome diz, mede o grau de correlação entre duas variáveis de escala métrica. O que pode demonstrar a dependência existente entre essas duas variáveis aleatórias, mas não implicando necessariamente em causalidade.

Seu cálculo é relativamente simples e consiste na divisão da covariância entre duas variáveis pela raiz da multiplicação entre seus desvios padrão. Isso gera um valor entre 1 e -1, onde os valores próximos de 1 significam elevado grau de correlação positiva e valores próximos de -1 demonstram elevada correlação negativa. Valores próximos de zero representam ausência de correlação.

O primeiro caso analisado foi o da Suzano Papel e Celulose S.A., que apresentou um coeficiente de correlação com o dólar de 0,88. O gráfico abaixo demonstra essa correlação.

suzb3-dólar

Cada ponto no gráfico representa qual o valor da ação SUZB3, no eixo horizontal, para cada valor do dólar estadunidense, no eixo vertical. Como podemos perceber, valores menores para o dólar representam valores menores para ação no período e valores mais altos para o dólar estão relacionados a valores mais altos para a ação.

O segundo caso analisado foi o da Fibria Celulose S.A., que obteve um coeficiente de correlação com o dólar de 0,91.

fibr3-dólar

Apesar de notarmos, nesse gráfico, que valores para o dólar EUA próximos a R$ 3,20 implicaram em diferentes valores para a ação FIBR3, o ajuste entre o valor da ação e o valor do dólar foi melhor do que o caso anterior. Também demonstrando que quanto mais elevado o valor do dólar maior a relação com um preço mais elevado da ação.

Partiu-se então para a terceira análise, que contemplou as ações ordinárias da Klabin S.A. e retornou um coeficiente de correlação de -0,13.

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Esse caso retornou uma correlação negativa, porém muito próxima de zero. Como é possível observar no gráfico, os pontos estão muito dispersos, não havendo muita correlação entre um valor inferior para o dólar e um valor inferior para a ação nem entre um valor superior para o dólar e um valor superior para KLBN3.

A quarta e última análise foi da empresa Celulose Irani S.A., que apresentou um coeficiente de correlação com o dólar EUA de -0,59.

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Nesse último caso, a correlação negativa mostra que valores inferiores para o dólar estão mais relacionados a valores superiores para a ação ordinária RANI3 e valores superiores para o dólar se relacionaram a valores inferiores para a ação. Porém, essas relações não são muito fortes pela dispersão dos pontos no gráfico.

Conclusão

Este pequeno estudo permitiu verificar a afirmação de alguns analistas de mercado sobre os benefícios gerados ao setor de papel e celulose com a alta do dólar estadunidense e seu desempenho em bolsa de valores.

Nos dois primeiros casos, análises da Suzano Papel e Celulose S.A. e da Fibria Celulose S.A., a afirmação se mostrou verdadeira quanto à correlação existente entre os valores do dólar e os preços das ações. Porém, nos dois casos seguintes o mesmo não foi verificado.

No caso da Klabin S.A. e da Celulose Irani S.A. a baixa correlação e a correlação negativa, respectivamente, entre o valor das ações e o valor do dólar podem estar ligadas a outros fatores que impactam no preço das ações, como os prejuízos apresentados em alguns períodos por parte dessas empresas e a contratação de dívida em dólar.

Isso demonstra que, por mais que seja elevado o nível de correlação em alguns casos, a análise de preços de uma ação não deve se basear apenas em uma única variável. Pois os preços podem ser impactados também por outros fatores e o nível de correlação pode variar em diferentes períodos de análise.

Apesar dessa ser uma análise com bases estatísticas, é necessário fazer uma ressalva sobre as limitações da utilização do coeficiente de correlação para tentar explicar ou prever o valor de uma variável aleatória pelo comportamento de outra. Pois, para isso, existem técnicas estatísticas mais adequadas, como a regressão linear e a análise de séries temporais, por exemplo.

No entanto, este pequeno estudo se limita ao uso do coeficiente de correlação apenas para demonstrar na prática, e de forma compreensível ao investidor comum, a relação entre o desempenho das ações de um setor específico e a variação do dólar. Mostrando que as ações do setor de papel e celulose que mais se beneficiaram com a alta do dólar no período foram as da Fibria Celulose S.A. e as da Suzano Papel e Celulose S.A.

Atualização de 26/08/2018 às 16h15:

Um leitor me questionou a possibilidade da correlação calculada entre SUZB3 e o dólar ser inválida dadas as características do gráfico, que passou uma impressão de se tratar de uma correlação não linear.

Para elevar o grau de confiança no resultado apresento mais dois gráficos de SUZB3 x dólar EUA em períodos diferentes para demonstrar visualmente que se trata sim de uma correlação linear entre as variáveis. Abaixo seguem os gráficos.

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Marcos Nonaka é graduado em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e investidor entusiasta desde 2002 no mercado financeiro.

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