Inflação e rentabilidade real? Como considerar o efeito nos investimentos?

Recebi uma sugestão do meu amigo Diego Galante, assessor de investimentos no Grupo XP pela Center Investimentos, para escrever um artigo falando um pouco sobre a questão da inflação, que deve ser considerada ao calcular a rentabilidade dos investimentos.

Basicamente, a inflação oficial da economia é o índice divulgado por instituições de pesquisas econômicas, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), por exemplo. A primeira divulga mensalmente o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e a segunda publica o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). Os dois índices de preços mais utilizados na nossa economia.

E por que devemos considerar a inflação nos investimentos?

Porque a inflação, além de medir a variação dos preços na economia, também serve para se ter uma noção da perda de poder de compra da moeda com o tempo, devido, justamente, à escalada dos preços dos produtos e serviços. E isso também impacta sobre a rentabilidade real dos investimentos.

Imaginemos um exemplo simples, com uma aplicação de R$ 1000,00 na poupança. A rentabilidade nominal da poupança hoje está em 4,53% ao ano. Isso quer dizer que, realizando uma aplicação desse valor hoje e sendo mantida a taxa de juros, daqui a um ano os seus R$ 1000,00 terão rendido R$ 45,30. Porém, a rentabilidade real desse investimento será menor devido ao efeito da inflação.

Para você ter uma ideia, o IPCA de fevereiro divulgado pelo IBGE foi de 0,43% no período. Convertendo para um período anualizado, isso dá 5,28% ao ano. Ou seja, se o IPCA se manter nesse patamar nos 11 meses seguintes, esse será o efeito da inflação anual. Daí, pode-se perceber, nesse caso, que quem investiu na poupança ainda poderá obter uma rentabilidade real negativa.

Em termos matemáticos,

Repare que, ao descontar a elevação dos preços medida pelo IPCA da rentabilidade da poupança no período, o seu poder de compra se reduziu em 0,71% em um ano. Parece ruim? Sim, isso é ruim. Porém, se você não tivesse feito nem uma aplicação na poupança, o seu poder de compra teria sido reduzido pela inflação total, igual a 5,28%.

Isso quer dizer que, se você acha pouco a rentabilidade da renda fixa, por exemplo, e opta por deixar o seu dinheiro todo debaixo do colchão, você, além de não estar fazendo o seu dinheiro render, estará perdendo pela inflação total o seu poder de compra. Pois, quando você retirar o seu dinheiro do colchão no futuro para realizar alguma compra, o preço daquele produto ou serviço estará mais alto.

Então, é importante você fazer render todo o dinheiro que possuir, mesmo que a rentabilidade dos investimentos mais seguros seja considerada baixa. Assim, você estará garantindo a manutenção do seu poder de compra. E, se buscar pelos investimentos certos, conseguirá rentabilidades acima da inflação. O que não é muito difícil de se conseguir.

Os juros, em uma economia estável, sempre são colocados acima da inflação oficial, principalmente do IPCA no nosso caso brasileiro, divulgada pelo IBGE . Com isso, se você buscar por investimentos que rendam pelo menos a taxa básica de juros da economia (Selic), ou próximo dela, já estará obtendo rendimentos reais positivos.

Fazendo um adendo ao texto, incluo uma consideração feita pelo Diego Galante, assessor de investimentos no Grupo XP pela Center Investimentos, com relação à inflação oficial e a inflação real de cada pessoa.

A inflação oficial é aquela que mencionei logo no início desse texto, calculada por indicadores médios dos avanços nos preços da economia. No entanto, é possível que você tenha o seu próprio índice de inflação dada a sua cesta de consumo própria e que seja diferente das cestas utilizadas pelos institutos que divulgam a inflação oficial.

Nesse caso, você pode saber qual é a sua rentabilidade real dos investimentos utilizando o seu próprio indicador de inflação. Mas como seria isso? Você pegaria todos os seus itens de consumo mensais e o quanto você consome de cada um e compararia os preços mês a mês. Com isso o seu poder de compra pode ser diferente e variar do restante da economia.

Vamos supor que o IPCA de fevereiro seja aquele mostrado anteriormente, de 0,42%. Contudo, quando você comparou os preços da sua cesta ao final de fevereiro com os preços no final de janeiro, a alta foi de 0,27%. Se você aplicou o seu dinheiro na poupança, a rentabilidade nominal foi de 0,37% ao mês. Então, aplicando aquele cálculo matemático exposto acima, a sua rentabilidade real da aplicação foi de 0,10% e não uma rentabilidade real negativa.

Se você dispõe de tempo e de vontade de saber mês a mês a variação dos preços daquilo que você consome especificamente, pode ser viável você utilizar a sua inflação real. Se não for possível, você pode utilizar os indicadores de inflação oficiais que mais se enquadram ao seu perfil para ter uma noção do quanto o seu poder de compra está variando dentro da economia.

A consideração da questão da inflação é tão importante sobre os investimentos que ela incide também sobre a renda variável.

Se você compra uma ação no final de um ano e vende ao final do ano seguinte com um lucro de 20%, você precisa considerar que a inflação pode ter sido de 10%, por exemplo, no mesmo período. Logo, o seu lucro real sobre esse investimento em ações foi de 9,09%. Lembrando que não basta subtrair, é preciso aplicar o cálculo nos moldes apresentados neste artigo:

Você deve utilizar a rentabilidade e a inflação nos mesmos períodos para obter a rentabilidade real. Por exemplo, rentabilidade ao mês com inflação ao mês e rentabilidade ao ano com inflação ao ano.

Agora que você já sabe como obter a rentabilidade real sobre os investimentos, já pode iniciar a busca pelos investimentos que mais elevem o seu poder de compra.


Marcos Nonaka é graduado em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, investidor entusiasta desde 2002 no mercado financeiro e autor de artigos de educação e conhecimento sobre finanças.

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2 comentários

  1. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas você esqueceu de comentar o efeito do IR nos rendimentos nominais, ou brutos, como queira e os rendimentos reais. É possível que em determinadas situações deixar o dinheiro debaixo do colchão ainda seja mais rentável que aplicá-lo.

    1. Respeito e agradeço a sua opinião, Ermindo. No entanto, faço uma consideração sobre o que você disse.

      Em investimentos em que há a retenção do imposto de renda, ele incide apenas sobre o rendimento ou sobre os lucros. Então, mesmo com a incidência do imposto, é mais vantajoso aplicar o dinheiro que guardá-lo no colchão. Pois, o rendimento líquido pode ser menor com a tributação, mas ainda há rendimento. Se você deixar o dinheiro no colchão, não há rendimento algum.

      Um abraço.

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