Falando de proventos: A importância do retorno sobre o capital

blur-cash-chrome-164471

Recentemente, participei de um debate em um grupo de investidores onde se discutia a validade da estratégia de investimentos em ações de empresas distribuidoras de proventos, incluindo os dividendos e os juros sobre o capital próprio (JCP).

O principal argumento da maioria dos investidores que seguem essa estratégia é que ela funciona no longo prazo. Pois, a distribuição dos lucros aos acionistas é uma renda que permite a reentrada ou a compra de mais ações da empresa, elevando o montante em dividendos e JCP a ser recebido no futuro. Sendo este, portanto, um ciclo vitorioso ao investidor, pois permite que ocorra o efeito de juros sobre juros na renda variável.

No entanto, como em todos os tipos de investimento que se faça, é preciso ter em mente o retorno sobre o capital da estratégia. E, no caso dos proventos, você precisa adicionar ao cálculo a variação negativa ou positiva no preço da ação. Pois, você só ganha na realidade se o preço da ação subir. Se o preço se mantiver constante, você terá o mesmo capital total. E, se cair, o seu capital poderá ser menor do que o investido mesmo tendo garantido o provento.

Portanto, ao escolher seguir essa estratégia, além de observar os fundamentos, é importante comparar não só o dividend yield (DY) de uma empresa com o retorno de outros investimentos, como também a trajetória nos preços da ação.

Por exemplo, se ao comprar uma ação de uma empresa por R$ 10, você calculou um DY de 10% equivalente a R$ 1. Esse retorno é superior ao de investimentos atrelados ao CDI, que hoje está na casa dos 6,39% a.a. Porém, para ter um ganho de 10% a.a. na operação, é preciso que o papel suba aproximadamente 11,12%, pois estará cotado a R$ 9 na data ex. Se subir 7,1%, digamos que você estará recebendo o mesmo que investimentos atrelados ao CDI. E se subir menos que 7,1% você estará perdendo para esses investimentos.

Mas existem vantagens de se investir em ações de empresas distribuidoras de proventos, além do rendimento?

Pode-se dizer que existem duas vantagens. A primeira é que você passa a ter um fluxo de capital e este pode ser livre de impostos, no caso dos dividendos (os JCP são tributados à alíquota de 15% de imposto de renda). A segunda é que você pode reinvestir esse fluxo de capital adquirindo mais ações da empresa, gerando uma espécie de juros sobre juros ou de juros compostos.

E onde estão as desvantagens?

A primeira está em caso da necessidade de venda das ações. Como já citado, se estas estiverem cotadas a um preço inferior ao de compra, os ganhos advindos dos proventos podem ser reduzidos, anulados ou até superados.

A segunda é que essa é uma estratégia buy and hold (na tradução: comprar e segurar), portanto, não permite à você operar vendido e ganhar com a baixa no preço da ação. Se você abre o dia vendido na data ex, não tem direito ao provento. Porém, isso pode ser mitigado alugando suas ações como doador. Nesse caso, você passa a receber uma remuneração fixa acordada pelo empréstimo das ações à terceiros. Mas não pode vender as ações até elas serem devolvidas pelo tomador.

E como se proteger ou melhorar o desempenho da estratégia?

Cito abaixo alguns tópicos.

A análise fundamentalista

Como se trata de uma estratégia de investimentos de longo prazo, é de extrema importância fazer uma análise do contexto em que a empresa se encontra tanto internamente quanto num cenário econômico mais amplo nacional e internacional.

A análise fundamentalista consiste basicamente em avaliar os cenários macroeconômicos, de setor e da empresa. Essa abordagem, nessa ordem, é definida como top down (de cima para baixo) e é utilizada quando os cenários econômicos, global e interno, não estão muito favoráveis. Nessa situação, você busca as empresas que apresentem potencial de crescimento nessas condições. Apresentando ou havendo uma mudança macroeconômica favorável, você inverte a abordagem e inicia o processo pela análise da empresa. Essa abordagem denomina-se bottom up (de baixo para cima).

Como devem ser avaliados os números, podem ser utilizados diversos múltiplos e indicadores fundamentalistas a fim de se mensurar a situação atual e as perspectivas de crescimento. De tal forma, também é possível tentar obter uma noção do real valor de uma empresa.

O valor intrínseco

O valor de mercado muitas vezes subestima ou superestima o real valor de uma empresa e os adeptos do valor intrínseco tentam demonstrar essa diferença.

O uso do valor intrínseco, portanto, consiste em tentar comprar a ação quando ela estiver sendo negociada no mercado por um valor subestimado. Desse modo, você enxerga um potencial de valorização no papel. Já que ele estará sendo negociado por um valor inferior ao “valor justo” e isso pode incrementar os seus ganhos com a estratégia buy and hold visando os proventos com uma possível valorização no preço da ação.

Uma das dificuldades de utilização do valor intrínseco é, justamente, a sua apuração. Pois existem diversas métricas ou metodologias para o seu cálculo. Essas métricas, por sua vez, podem demandar diversas premissas e julgamentos que cabem ao tomador de decisão. Por isso, não raramente, o valor intrínseco varia entre diferentes opiniões e convicções.

O preço médio

O preço médio consiste em, ao invés de alocar de uma só vez todo o seu capital disponível para o investimento, você comprar aos poucos quantidades da ação escolhida e ir reduzindo o seu preço médio a cada entrada com preço inferior. Ou, como já mencionado, você pode comprar mais ações da empresa com os proventos. Isso, na maioria da vezes – dado que depende do preço de compra – reduz o preço médio, pois você passa a ter um número maior de ações sem ter colocado dinheiro novo, do seu bolso. Mas é preciso lembrar que o valor dos proventos é abatido do valor de mercado das ações na data ex e que isso não implica que você irá conseguir comprar mais ações por um preço mais baixo. Já que, normalmente, os proventos são pagos aos acionistas posteriormente.

Remuneração com opções

Consiste na compra de opções de venda (put) ou venda de opções de compra (call). Nessa situação, você tenta garantir o direito de vender a ação a determinado preço. Porém, para não ter que se desfazer da sua posição comprada nas ações visando os proventos, você pode revender as calls ou recomprar as puts no futuro, antes do vencimento, e refazer a operação em outra série, numa operação de rolagem, e obter algum lucro, remunerando a sua carteira mesmo com a queda das ações, por exemplo. No entanto, você também pode ter prejuízos com a rolagem de opções.

O Hedge

O hedge é a venda de outros ativos de alta correlação ou pelo beta estimado, esperando uma variação em direção igual a da ação ou que seja compensada pelo beta. Dessa forma, de acordo com os movimentos entre a ação e o ativo utilizado para o hedge, você pode recomprar o ativo de proteção por um preço inferior no futuro, ou, se o preço do ativo subir, você terá que recomprá-lo por um preço mais alto, mas esse prejuízo é compensado no movimento do preço da ação pela correlação ou pela compensação do beta estimado.

Dificilmente você conseguirá montar um hedge perfeito, onde o ganho ou perda no ativo escolhido seja igual a perda ou ganho no movimento da ação. E, como tanto a ação quanto o ativo de hedge têm “vidas próprias”, em alguns momentos, os seus movimentos podem se descolar da correlação ou do ajuste pelo beta. Nesse caso, você pode ir corrigindo as distorções a medida que o tempo for passando e as divergências entre o estimado e o observado forem aparecendo.

A diversificação

Outra alternativa é a diversificação do portfólio. Ao invés de se expôr ao risco de uma única empresa, você pode montar uma carteira composta por companhias de diferentes setores e que sofram diferentes impactos da economia. Dessa forma, você estará diluindo os riscos entre as empresas. No entanto, isso também dilui os retornos? Dilui. Mas, é o “preço que se paga” pela proteção do capital. A diversificação também não impede que um evento sistêmico da economia afete toda a sua carteira.

Conclusão

A estratégia de investimentos visando os proventos é, definitivamente, uma estratégia de longo prazo e para quem tem disciplina para investir. Funciona bem se você tiver consciência do retorno dos proventos e da variação nos preços das ações (riscos), como mostrei nesse artigo. E é indicada para quem tem uma previsão longa de utilização dos recursos investidos e também uma boa leitura do mercado tanto no presente quanto sob perspectivas futuras.


Marcos Nonaka é graduado em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, investidor entusiasta desde 2002 no mercado financeiro e autor de artigos de educação e de conhecimento sobre finanças.

www.twitter.com/marcosnonaka twitter logo 35x35

Clique aqui para participar dos grupos sobre finanças no WhatsApp whatsapp logo 40x40 
e no Telegram telegram logo 35x35.

C&F logo chanfrado 35x35Saiba aqui em que acreditamos

Saiba mais sobre este site (Disclaimer)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.