A grande inovação das cripto”moedas” pode ser o blockchain e não o bitcoin

Item que revolucionou o mercado financeiro por meio das facilidades das transações, hoje o bitcoin enfrenta resistência dentro da própria comunidade de criptoativos, como já foi evidenciado pelos forks e pelo surgimento de outros projetos paralelos de criptomoedas, que originaram, entre outros, o litecoin e o ethereum, por exemplo. Porém, o bitcoin já tem o seu lugar na história como o pioneiro e sem ele não teríamos por trás toda a ideia sobre o blockchain, que é o que realmente vem revolucionando o mercado.

O bitcoin, não necessariamente agora devido a queda nos preços, pode estar fadado apenas à lembrança como o ativo que proporcionou toda essa revolução no meio digital a que estamos presenciando, se não passar por transformações e surgirem novas utilidades para o seu uso além das transações financeiras e meio de pagamento. Já o blockchain, por fornecer inúmeras soluções ao mercado, desde possibilitar a transação de ativos e informações digitais com segurança, por exemplo, parece que veio para ficar e a sua aceitação e utilização crescem tanto quanto ao uso do próprio bitcoin.

Talvez o bitcoin como moeda, seu conceito original, seja algo que ainda esteja muito à frente de seu tempo. Enquanto ele não for efetivamente utilizado como uma moeda ou tiver alguma outra utilidade que gere valor, ele não terá outro preço fora o de mercado. E, no mercado, ele pode ter qualquer valor dependendo apenas das expectativas. Por isso, os entusiastas se apegam tanto às propagandas. Se as notícias sobre o bitcoin forem “boas”, as expectativas poderão fazer com que os preços se elevem sem que necessariamente isso represente uma verdadeira geração de valor.

Quando falo em geração de valor me refiro ao valor intrínseco e rebato, inclusive, um artigo do respeitável Instituto Mises (clique aqui para ler), que diz que: “o valor intrínseco (ou fundamental) de qualquer ativo financeiro é encontrado quando trazemos ao valor presente seus fluxos de caixa futuros.”. O que não é verdade. Pois, o valor intrínseco pode ser obtido de diversas formas. É mais apropriado dizer que o valor intrínseco é aquele que pode ser obtido para algum bem por meio de algum cálculo matemático.

Como exemplo, cito a moeda mais utilizada no mundo hoje, que é o dólar estado-unidense. Você consegue obter um valor para o dólar fora da cotação de mercado se, por exemplo, montar uma cesta de produtos avaliada em reais brasileiros, verificar quanto ela custaria em dólares e dividir os totais (veja o exemplo no Apêndice ao final desse artigo). Assim, você pode atribuir um valor para o dólar, mesmo que ele seja divergente para outras pessoas, pois, cada um pode elaborar uma cesta que melhor lhe represente ou atenda aos seus gostos pessoais, ou seja divergente também da cotação cambial de mercado.

Se a pessoa optar, ela pode acrescentar ao cálculo expectativas futuras por meio de fluxos de caixa. Que foi o pretexto utilizado pelo Instituto Mises para refutar aqueles que afirmam que o bitcoin não possui valor intrínseco hoje. No entanto, isso não é algo obrigatório e depende dos critérios pessoais de análise e de julgamento de cada um.

Já com o bitcoin, ainda não é possível determinar um valor intrínseco, pois nada é, até então, precificado em bitcoin. O preço de determinado bem ou serviço que se possa comprar utilizando bitcoin hoje ainda é apenas convertido sobre a cotação em outras moedas de fato. Um notebook que se compra agora com um bitcoin, daqui a pouco poderá ser comprado por 1,0005 ou 0,0095 bitcoin. Ele não permanecerá custando um bitcoin, pois não é precificado em bitcoin.

Outro argumento muito utilizado na comunidade de criptoativos para dizer que o bitcoin tem valor é o fato de ele ser descentralizado e ter uma emissão limitada predefinida. O que é uma grande falácia econômica. O bitcoin atualmente já é bastante centralizado, não por governos, mas, por poucos investidores que concentram grandes quantidades do criptoativo. E isso permanecerá durante a existência do bitcoin. Pois, não é objetivo do bitcoin igualar o patrimônio de ninguém.

O risco dessa falácia é que, na ausência de poder de intervenção e de coibição de atos manipulatórios sobre o bitcoin, os que possuem menor quantidade não ficam sujeitos às vontades de um governo, mas podem ficar reféns de grandes players no mercado. Quem já assistiu Mauá – O Imperador e o Rei, filme de 1999, sabe o que Mauá fez quando tinha grande poder econômico e atuou na compra e venda de dólares – Para quem desconhece, o Barão de Mauá foi o fundador de uma das versões do Banco do Brasil.

O blockchain

No quadro inferior pode-se ler: “Enquanto o Bitcoin se estabelece como a principal moeda digital, bancos estão mais focados em aplicações de tecnologias subjacentes ao Blockchain”. Fonte da imagem: https://thenextweb.com/business/2017/01/23/blockchain-overshadowing-bitcoin/

Já quando se fala em blockchain, podemos estar falando de uma das maiores inovações já introduzidas no comportamento das pessoas e no mercado financeiro. Assim como já foi o sistema de cartões de crédito e outras inovações do mercado financeiro, dos meios de transações e de pagamentos. Para quem ainda não está muito por dentro do assunto, o blockchain é o que permite a utilização do bitcoin por meio de realização de transações criptografadas em protocolos, utilizando uma rede descentralizada para a confirmação das transações.

O próprio – ou a própria – blockchain já nasceu com uma característica de sistema de código computacional aberto, que permite a utilização e alteração no código-fonte. Isso faz com que possam surgir inúmeras adaptações e utilidades no uso dessa rede, proporcionando um potencial enorme para onde evoluir. Como é possível observar no desenvolvimento da lightning network.

A lightning network, em definição encontrada na web é:

“Tida como uma das mais esperadas inovações tecnológicas a ser implementada sobre o Bitcoin. A camada de pagamento promete suportar uma quantidade de transações financeiras similares a quantidade suportada por uma rede de cartão de crédito. Imagina-se que este volume de transações fora da blockchain entre usuários possa ser alcançado a um custo irrisório, enquanto aproveita a segurança oferecida pelo Bitcoin.”

Apesar de mencionar as transações fora da blockchain, na mesma fonte da definição encontrada é possível ler que: “A Lightning Network depende da tecnologia subjacente da Blockchain.” (leia aqui, na íntegra). Ou seja, não teria surgido sem a criação e a existência do blockchain.

O que quero dizer com tudo isso é que, apesar da ideia principal ter sido o bitcoin, uma tecnologia integrada para o seu funcionamento pode fornecer mais soluções do que o próprio bitcoin em si se ele não passar por transformações e mudanças que o tornem amplamente ou universalmente aceitável. Já o blockchain, por ser uma inovação até então considerada menos importante e secundária, utilizada apenas para o funcionamento das criptos, pode ser mais maleável às mudanças, de acordo com as necessidades, que o bitcoin.

Qualquer pessoa pode acessar o código-fonte da blockchain e fazer o uso que quiser, implementar mudanças e criar uma nova blockchain, por exemplo. Se essa nova blockchain substituir a antiga, o conceito de rede de transações continuará existindo. Se o mesmo for feito com o bitcoin, como já aconteceram várias tentativas com a criação de outros criptoativos, sendo o bitcoin substituído ou caindo em desuso por outro ativo digital, o conceito anterior morre, se perde.

Não faço toda essa análise apenas para dizer que o bitcoin ou o blockchain, um ou outro, é bom ou ruim. Mas para mostrar que, atualmente, um está mais propenso a ser modificado e a ser utilizado para atender e se ajustar às necessidades do que o outro, e, também, para chamar a atenção da comunidade de criptoativos para que avaliem e aceitem melhor as mudanças, não se apegando às convicções pessoais. Se quiserem que o bitcoin seja amplamente aceito e se torne um dia uma moeda terão que ouvir as necessidades e se adaptarem.

Quem está no mundo das finanças e dos investimentos deve continuar se atentando e permanecer acompanhando o que acontece no mercado dos ativos digitais. Pois, provavelmente, o mercado passará por constantes adaptações. E, mesmo que o bitcoin se torne o novo Esperanto – língua universal que é falada por quem não gosta ou não aceita usar o Inglês -, onde somente os adeptos o utilizam, muita inovação ainda pode surgir desse mercado. Inclusive, no próprio bitcoin.

Apêndice

Exemplo da precificação do dólar em reais (obtenção do valor intrínseco):

Suponhamos, que você monte a seguinte cesta com os respectivos preços médios, em reais:

  • Arroz = R$ 10
  • Feijão = R$ 5
  • Total = R$ 15

Em seguida, você monta a mesma cesta com os respectivos preços médios de supermercados dos EUA:

  • Arroz = US$ 2,6
  • Feijão = US$ 1
  • Total = US$ 3,6

Dividindo o valor da cesta em reais, comprada com os preços médios no mercado brasileiro, pelo valor da mesma cesta comprada no mercado dos EUA você obtém o seu valor intrínseco para o dólar, em reais, independentemente da cotação cambial de mercado para o dólar também em reais, seja ela de R$ 5 = US$ 1, R$ 4,50 = US$ 1 ou R$ 4 = US$ 1, por exemplo. Se não acreditar muito nisso, sugiro que tente fazer na prática com preços e cotações não fictícios.

O seu valor intrínseco, no exemplo dado anteriormente, será:

  • R$ 15 / US$ 3,6 = R$ 4,17 aproximadamente.

Marcos Nonaka é graduado em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, investidor entusiasta desde 2002 no mercado financeiro e autor de artigos de educação e conhecimento sobre finanças.

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